Quando 2012 terminar, o que permanecerá em Guimarães para lá do efémero título de Capital Europeia da Cultura ostentado em 2012, juntamente com Maribor? Poderá este magnífico projecto concretizar-se com uma organização de costas voltadas para a Universidade do Minho e até para a cidade e a região? Qual irá ser a ideia mestra? Qual o fio condutor, a proposta, a imagem que deve perdurar de Guimarães2012 na memória dos visitantes e participantes das “muitas e desvairadas” iniciativas a realizar?
Será que a proposta inicial Guimarães2012, que obteve aprovação internacional, se concretiza no programa de iniciativas que se vai esboçando? E será que cada iniciativa - qual pincelada numa tela – vai compor com as restantes um quadro compreensível, com algum sentido?
Estas são algumas das questões com que o cidadão comum se inquieta, à rápida aproximação de 2012. E, no entanto, a Capital da Cultura tem andado nas bocas do mundo por outras e menos construtivas razões. Primeiro, foi o escândalo dos vencimentos da Fundação Cidade de Guimarães. Mais recentemente, a ruptura com a Câmara Municipal. Uma coisa é certa: este projecto não deve falhar. Não deve nem pode falhar por 3 boas razões: por Guimarães, por Portugal, pela Europa. E ainda por uma quarta – pela Cultura, raiz de futuro.
Nos últimos anos, a cultura tem vindo a tornar-se uma actividade profissional/industrial quase exclusiva de círculos fechados “bem-pensantes”, de lóbis capazes de manter um controlo mais ou menos eficaz, embora discreto, dos circuitos de acesso a subsídios públicos, à exposição mediática e, deste modo, ao “grande público” - redundando tudo na “degeneração da arte ocidental” de que já Miguel de Unamuno falava. Na sua génese - e princípio permanente - a Cultura é depósito de vida em Comunidade. Subsiste em cada Homem. Pode Guimarães2012 contribuir para devolver este sentido original à palavra Cultura, à identidade europeia?
Tanto a crise do euro como a recente tragédia na ilha norueguesa de Utoyea nos falam, afinal, da crise da ideia de Europa. Poderá Guimarães2012 dar algum contributo para reavivar o sentido original da Europa, integrando harmoniosamente a sua matriz medieval cristã com o espírito do renascimento que permitiu o espectacular movimento de abertura desta ao mundo - movimento que Portugal iniciou a partir do seu berço vimaranense?
Por via do fado ou da agência Moody's, os ânimos lusos andam acabrunhados. Não será esta Guimarães2012 capaz de reavivar o impulso vital que aqui um dia nos deu o ser como povo? Povo, pátria ou língua portuguesa que sejamos – o mesmo para Fernando Pessoa - «falta cumprir-se Portugal».
Guimarães2012 é uma grande oportunidade, talvez única. Saibamos dar as mãos com uma Fundação refundada, reconquistando a cidade e a região envolvente, envolvendo e estimulando transcendência nas entidades já activas “no terreno”, dando de Guimarães uma imagem de qualidade internacional.
Igual mas distinto da Expo'98, porque não um espectáculo diário de encerramento, fundindo a “Mensagem” de Pessoa n'
“O Bobo” de Herculano* junto aos muros do Castelo de Guimarães? Quem não se lembra do espectáculo “
O Bobo” encenado pela “Oficina teatro” em 2001 por ocasião do 3º Congresso Histórico de Guimarães?
Um "pós-2012" é possível: português e europeu... mas com espírito de Guimarães.