quinta-feira, abril 10, 2008

O “Fachismo” (olímpico) chinês (clube de análise RCM, 10.04.08)


Aproxima-se a abertura dos Jogos Olímpicos de Pequim que segundo a Carta Olímpica procuram "criar um modo de vida baseado na alegria do esforço, no valor educacional do bom exemplo e o respeito pelos princípios éticos universais” e têm como objectivo "colocar o desporto ao serviço de um harmonioso desenvolvimento da humanidade, com vista a promover uma sociedade pacífica e preocupada com a preservação da dignidade humana”.
Põe-se então a questão: será legítimo e eficaz um boicote a estes jogos em solidariedade com o Tibete e com tantas vítimas de violação de direitos humanos mesmo dentro da China?
Alguns, como Sarkozy, colocam a hipótese de boicote puro e simples dos jogos – já aconteceu nos de Moscovo em 1980 e a seguir nos de Los Angeles em 84. Outros, como César das Neves, alertam para o respeito devido mesmo a “Orcs”, concluindo que devemos “correr, saltar e brincar” com eles, já que também nós podemos aqui e ali tornar-nos uns valentes Orcs – legalizando a barbárie de lesa-Humanidade, por exemplo. Orcs, já agora, eram aqueles seres maus e repelentes do “Senhor dos Anéis”...
Ouve-se muitas vezes a tese politicamente correcta: “não misturar a política (internacional) com o desporto”; “não misturar a política (paroquial) com a... paróquia”... É uma tese bonita – especialmente para o cacique ou para o tirano – esta que condena a discussão dos assuntos da polis nos sítios onde a polis se reúne, ainda que sob outro pretexto. Controlados os restritos “locais próprios” e censurados os supostos locais impróprios, bem podem descansar os “pais da pátria”, os “regedores da cidade”...
Mas não têm sido afinal os políticos a misturar a política com o desporto? De quem é a culpa (se é que há culpa nisto) de os grandes eventos desportivos se assumirem como grandes montras da política? Entre nós, quem não recorda as grandes vaias de Durão Barroso na Luz, as de Alberto João Jardim nos Barreiros... ou, mais recentemente, as de Sócrates em todo o lado? E quem pode esquecer os dez estádios (que ainda estamos a pagar), outros tantos trampolins de Durão Barroso para a comissão europeia?
Os Jogos Olímpicos modernos, são mais do que um mero evento desportivo – são um símbolo da Paz e uma celebração dos Direitos Humanos - tudo o que a China nega neste momento, particularmente no Tibete.
Citando um dos autores do blogue portugalprovida, Carlos Videira:
«a China apenas se encontra nesse grupo de países [industrializados] devido a um profundo desrespeito pelos direitos humanos, desde a exploração de mão-de-obra infantil ao patrocínio de conflitos [internacionais], com grande ênfase para o continente africano.
[refira-se a parceria China-Sudão, parcialmente responsável pelo terrível drama do Darfur; o apoio à luta armada contra Portugal em Angola e Moçambique. Há aqui hipocrisia grossa: hoje a China queixa-se de supostas ingerências da comunidade internacional nos seus assuntos internos (como se o Tibete fosse reconhecidamente um assunto interno da China) e esquece as suas próprias ingerências nos assuntos internos dos outros – com apoio financeiro e logístico (na guerra da África portuguesa) ou... com a “ingerência” armada no mesmo Tibete, em 1949].
A China, é hoje [um dos países] onde mais violações aos direitos humanos ocorrem: condicionamento da liberdade de imprensa (que dizer das restrições à imprensa internacional durante os jogos na praça de Ti an a -Men?), limitação dos direitos e garantias dos cidadãos (com a complacência mercantilista do ocidente), dumping social (trabalho infantil e exploração do trabalho sem direitos, perante o curiosíssimo silêncio do nosso PCP), restrição da liberdade de expressão e de pensamento, promoção da censura, proibição de partidos políticos [alternativos], perseguição de instituições religiosas, criação de salas de morte para crianças e deficientes, que são um atentado à dignidade humana [e uma chacina sem precedentes traduzida na sua solução-final: programas de limitação da natalidade com recurso ao aborto e esterilização forçada de mulheres].
É a China que executa um verdadeiro genocídio cultural no Tibete e procura a toda a hora denegrir a imagem do Dalai Lama. [...] tenta asfixiar a língua e a cultura tibetana destruindo mosteiros porque destruindo-se a identidade tudo se torna mais fácil.».
Portanto, e se não houver coragem para um boicote por cobardia cívica e interesses comerciais ou interesses desportivos dos atletas, pode-se ao menos faltar à Cerimónia de Abertura ou, se os atletas realmente comungam do espírito olímpico, podem estes solidarizar-se com aquele povo oprimido desfraldando pequenas bandeiras do Tibete durante a parada (a China levará o abuso ao ponto de revistar os atletas e a cidade olímpica?), recebendo as suas medalhas no pódio com a saudação do Dalai Lama, dando a volta de honra com a bandeira da ONU... ou do Tibete! [ Citius, fortius, altius – o ideal olímpico aplicado às bandeiras do Tibete: sacá-las do bolso bem depressa, segurá-las com força e levantá-las bem alto... para não lhe chegarem os stewards chineses antes de as câmaras as mostrarem ao mundo]»
Não assumir com coragem o primado dos princípios no concerto dos povos, pode valer no imediato alguma simpatia comercial da nova super-potência, mas custará ao mundo um preço muito maior pago em Dignidade, Justiça e Paz... Perante isto, iremos nós aplaudir boçalmente o politburo chinês na cerimónia de abertura e encerramento? Ou seremos fieis às nossas convicções, exigindo à China o mesmo que exigimos a outros como condição do respeito internacional? Não pode haver um lugar no concerto das nações livres para quem espezinha as mais elementares liberdades dos cidadãos. Não basta ter dinheiro para merecer o nosso respeito. Não será por ter muito poder, dinheiro, capacidade militar ou excelentes atletas que os líderes chineses deixarão de ser... - na metáfora de César das Neves - uns Orcs!
Uma nota de esclarecimento final: esta não é uma crónica sobre umas vagas injustiças cometidas algures lá longe por um regime autocrático e rico contra um povo oprimido e pobre. Esta é uma posição e um alerta, em nome da cidadania global, também a favor da cidadania portuguesa. Ou não estaremos nós hoje e aqui também interessados nessa garantia - que a internet veio consolidar – de que quando algum dos nossos países for submetido à força de uns tantos Orcs - mais ostensiva (como na China) ou mais subtil (como em Portugal) - onde quer que eles apareçam sempre se levantará alguém para lhes tentar apagar o facho ou “fachismo” Olímpico, e em sufrágio do nosso silêncio forçado gritar-lhes: «até quando, ò tiranos, abusareis da paciência do vosso povo?»

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Duas notas extra:

Desejo a Jorge Coelho um bom mandato à frente da Mota-Engil e peço-lhe que esteja atento, não vão os criativos do Marketing da empresa, para agradar ao novo comissário político, digo, ao novo C.E.O., lembrar-se de mudar o slogan da empresa, inspirando-se naquela sua famosa tirada “quem se mete com o PS leva! - quem se mete com a MOTA-Engil leva”. Se já não é simpático levar com a imprensa-controlada, a má governação do PS e uma ou outra retaliação directa ad hominem, levar com uma betoneira da Mota-Engil deve ser ainda mais desagradável!

O movimento Portugal pro-Vida - Braga veio lançar um desafio ao Movimento Esperança Portugal que vem a Braga por estes dias: Se se assumem como católicos os seus dirigentes, porque receia o MEP assumir como prioridade sua a defesa da causa da Vida, a luta contra a liberalização do aborto, do divórcio e da eutanásia, como faz o Portugal pro Vida e até o “conservador” PSD? O seu líder, Rui Marques, ainda não está livre da invisível tutela de Sócrates? Ou quer precaver as suas chances para futuros “tachos”, continuando a merecer a confiança do PS? Obrigatórios, não descartáveis para quem se quer assumir como político-e-cristão, bom seria que os Valores da Vida se sobrepusessem a interesses menores e ao pior calculismo político, como aquele de pretender nascer ao centro “entre o PS e o PSD”...

2 comentários:

Carlos Alberto Videira disse...

Muito obrigado pela referência!

Um abraço

AKA disse...

Gostei bastante das suas palavras e fico bastante contente por saber que é um activista dos direitos humanos.

Um bem haja professor.